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MARCAS PROFUNDAS E INDELÉVEIS

Imagem retirada do Site Meus Times de Botão

Conheci o Sr. Vicente Sacco Netto em uma viagem ao Morro dos Conventos, Araranguá – SC, coisas que não se tem como explicar, apenas começamos a conversar na pousada onde estávamos hospedados e o assunto fluiu por história, onde ele me contou que havia escrito um livro sobre Giuseppe Garibaldi, futebol quando ele me contou sobre a sua paixão pelo Brasil de Pelotas. Por fim, iniciada esta amizade, chegou o momento em que cada um voltou aos seus lares. Passada uma semana, recebi magnífico livro sobre o Garibaldi pelo correio e junto uma crônica também escrita por ele, falando sobre o Futebol de Botão, ou como queiram Futebol de Mesa. Então ai fiquei conhecendo um outro lado deste novo amigo, um nada mais nada menos, que um pioneiro e campeão desta modalidade. Fiquei encantado com o texto e imediatamente pedi a ele permissão para publicar o texto, sabedor de que estes relatos ecoam na mente de muitos que na infância tiveram o mesmo sonho de montar seus esquadrões de mesa. Agradeço então o consentimento do Vicente Sacco Netto em ter seu texto publicado aqui e ao amigo Adauto Sambaquy pelo envio do mesmo formatado.

MARCAS PROFUNDAS E INDELÉVEIS (por Vicente Sacco Netto)

Ah sim ! Aquelas marcas, eu as conheço muito bem !  Pois é, naquela mesma calçada da rua onde passei boa parte da minha infância e, também, da minha adolescência, pus-me a refletir. Há poucos dias, ali estive e não deu outra. Sempre sou acometido pela nostalgia, quando volto àquele quarteirão. Paro por alguns minutos e a mente vagueia no tempo. A casa onde morei está como eu, desgastada pelo tempo…envelheceu. Mas as marcas , ou sulcos, nas paredes da casa contígua – aquelas marcas – estão muito nítidas. Com efeito, há muitas razões para que permaneçam. Explico : naquelas paredes foram forjados s maiores “craques” na minha imaginação de guri.

Parece incrível, nos botões a gente enxerga a própria pessoa do futebolista. Comecei, aos seis anos de idade, com as tampas de vidros de remédio, de brilhantina Royal Briar, de creme Antisardina e, até mesmo, com tampinhas de garrafas. Num belo dia minha mãe – que Deus a tenha ! – incumbiu-me de levar um bilhete a uma senhora que lhe encomendara um vestido (minha mãe, Chiquinha, era costureira, e das melhores). O bilhete tinha o seguinte teor : “ Da. Alzira mande, pelo Vicentinho, uns seis botões daqueles que combinamos usar no seu traje “. Da. Alzira – não sei por que razão – entregou-me um pacotinho com sete botões.  Eram das minhas cores prediletas, ou seja, vermelho nas bordas e, ao centro, um círculo preto. Naquela época, década de cincoenta, o G.E.Brasil  (grande Xavante) contava com um ponteiro direito de nome Mortosa (tio do atual assistente do Felipão), famoso por desferir chutes fortíssimos.  Não hesitei um instante. Entreguei o pacotinho  a minha mãe e o sétimo botão, o Mortosa, acompanhou-me até a calçada e dali à parede de cimento penteado. Com muito esmero, dei-lhe uma caída apropriada para que pudesse arremessar a bolinha, botão de bragueta, por cima dos goleiros (caixas de fósforo com chumbo por dentro) adversários.  O calendário da casa ou folhinha, como se dizia, ficou com um furo de tesoura no espaço do número sete. E o Mortosa não me decepcionou. Ao contrário tornou-se o goleador do time. Aquele fato desencadeou um processo ininterrupto de muitas décadas, pois cheguei à conclusão de que as tampinhas não davam o melhor retorno.  Aderi aos botões de casaco ou sobretudo. Passei a freqüentar a casa de um alfaiate amigo da família, sempre que tivesse oportunidade. Dizia-me o Sr. Antonio Cordias : “ Vicentinho cuida da porta para mim, que vou tomar um café e já volto “. Pode ir Seu Antonio. E me dirigia para as caixas de botões no estoque das prateleiras. Sugiram assim o Tibiriçá, o Seara, o Manoelzinho, o Tábua e outros tantos grandes jogadores. Mas, no fut. de botões, como no de campo, a competitividade não tem limites e logo surgiram os io-iôs. Os discos dos io-iôs tinham o seu lado interior absolutamente lisos e bastava uma lixadinha para adaptar a caída e …pronto. O Dino Sani ,do São Paulo F.C., nasceu assim. Chutava muito bem de longe. Tinha uma cor de cenoura e atuava tanto no meio de campo, como na meia, tal como o de carne e osso. Logo vieram outros da mesma matéria prima : Pé de Valsa, Bauer e Alfredo, a linha de  “halfs “ do SPFC  em 1953.  A duas quadras da minha casa, localizava-se o Vidrauto Princesa, casa especializada em párabrisas, pertencente ao Sr. Luís Carlos Moreira dos Santos, um cidadão com quem, muito tempo depois, estreitei laços muito fraternos.

Passei a usar o vidro-plástico (era esse o material dos parabrisas). De posse de um compasso e da serra tico-tico, usada na disciplina Trabalhos Manuais do colégio, comecei a produzir peças circulares e a lançar outros” atletas”. Esse trabalho era árduo, pois o material era muito duro e o lixamento na parede de cimento penteado causava bolhas e ferimentos nas mãos. Os resultados, no entanto,  eram compensadores, ainda mais quando descobri que, com acetona, ou éter, poder-se-ia colar ao vidro plástico uma camada superior do plástico comum, existente em brinquedos quebrados das minhas primas. Justamente na era dos famosos puxadores de uma, duas e até de três camadas, conseguia lançar “ atletas “ muito parecidos a custo muito menor ;até de graça. Ora, contando com tantas opções de matéria prima, como os io-iôs, botões de casaco, vidro plástico e plástico derretido em formas, colecionei muitos times de qualidade.  Os resultados em torneios e disputas com colegas e amigos eram animadores.  Desenvolvi uma razoável habilidade no preparo de botões de todo o tipo. A pior empreitada de todas foi quando me atirei ao fabrico de botões de casca de coco. Primeiramente, tinha de retirar aquela crosta de fiapos do lado de fora. Haja tempo de paciência ! Pobres dedos ! Depois, continuava o lixamento para dar forma circular ao pedaço de casca, na famosa parede é, claro. Casca de coco não se corta com faca ou serrinha tico-tico. Esmeril ? Não havia. O material é muito resistente. Mas, o Gino, o Maurinho e o Canhoteiro, surgiram assim, além de muitos outros.  A casca de coco, de difícil manuseios e doloroso preparo, redunda nos melhores botões, até mesmo pelo peso do material e por deixar a base interna naturalmente côncava. Aceita perfeitamente a parafina, a cera, os adesivos e, com um acabamento dado com caco de vidro bem afiado, fica totalmente lisa.  Com dois tacos de madeira de iguais dimensões e duas tampas de remédio, também iguais, abertas no topo, é possível montar as cestas. Com botões levantadores e pequenos botões de bragueta, como bola, pratiquei o basquete. Algodão, Godinho, Guguta, Amauri, Vlamir e outros, formavam o meu time do Flamengo.  Os modismos pressionam os meninos, tanto na infância como na adoloscência.  Utilizar puxadores tornou-se uma verdadeira coqueluche. Comecei a me sentir meio fora da onda com os meus botões, embora os resultados, como já afirmei, fossem gratificantes.

Tomei uma decisão : teria um time de puxadores vindos de P.Alegre. Mas, como obtê-los ?  Cadê a grana ?  Lamentando o caso com um outro menino, o Ângelo, surgiu-me uma idéia magnífica.  A senhora mãe dele e ele próprio fabricavam, artesanalmente, uns bonequinhos de naftalina para vender. Os bonequinos vinham com fitinhas e florzinhas, todos enfeitadinhos, e as pessoas os utilizavam  para evitar o aparecimento de traças e outros insetos.  Argumentei com o Ângelo (onde andará ?) que forneceu-me uma boa quantidade dos tais bonecos para pagamento após a revenda.  A operação comercial funcionou às mil maravilhas, pois pagava, digamos, Cr$ 1,oo e revendia por Cr$ 2,oo.  Coloquei os bonecos em uma caixa de sapatos e os oferecia de porta em porta. Em pouco tempo, após pagar a mercadoria, com folga financeira, encomendei o time de puxadores e mais dois reservas. A defesa era de duas camadas (preto em baixo e vermelho em cima). Os dois ponteiros e o centroavante (centerforward) eram vermelhos e os dois meias, pretos. Os atacantes e os reservas (pretos) eram todos de uma só camada. O goleador daquele time era o Joel, ponta direita do Flamengo. Passado um largo tempo daquela retumbante contratação, decidi ampliar o plantel e, novamente o Ângelo foi o empresário que financiou tudo. Vieram mais e mais puxadores de todas as cores imagináveis. Na hora do recreio no colégio, formava-se uma pequena multidão a minha volta.

Haviam trocas, compras e vendas.  O Ilmar (já falecido) jogava com o Corinthians e tinha um botão de nome Paulo (reserva do Índio),que era um bárbaro nas finalizações. Seu chute era seco e certeiro. Para mandar no canto era com ele mesmo, pois a bolinha não picava. Nessa época (1957,talvez ?),houve um surto de sarampo em Pelotas e o Ilmar foi acometido pela doença,tendo de ficar acamado por alguns dias. Arrisquei-me ao contágio e fui visita-lo. Papo pra cá e papo pra lá, trocamos alguns botões e consegui contratar-lhe o Oreco, que era muito conceituado para cavar.  Entre propostas e contrapropostas, acertamos a aquisição do Paulo (azul marinho brilhoso).  Despendi Cr$ 15,oo, mais três botões de duas camadas e doze gibis de segunda-mão. Acontece que o Ilmar queria ler na cama. Na época não houve outra contratação tão valorizada. Proporcionalmente, seria como a do Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo.  Meus amigos mais próximos ficaram com a mesma cara da diretoria do Grêmio, pela inveja e frustração que sentiram.   Sai pela rua correndo e pulando com o Paulo na mão e mostrando para o resto da gurizada. Confesso que fiquei esnobando a turma, como quem diz : agora não tem pra ninguém.  Muito bem ! Até hoje, passados mais de cincoenta anos, estou aguardando a estréia do Paulo. Por que ?

O Paulo sumiu! Não sei se o perdi nas comemorações ou foi furtado/seqüestrado.  De 1958 a 1960, minhas atividades botonísticas diminuíram de ritmo, pois passei a trabalhar numa empresa atacadista vizinha a minha casa, lá onde está a decantada parede.  Diminuíram mas não pararam. Na tal empresa havia um grande estoque  sabem de que ? De botões ! Meu emprego passou a fornecer-me a matéria prima e a parede de cimento penteado. Hoje em dia não se encontra um emprego assim. Um botão surrupiado de uma caixa, outro botão de outra caixa e aqueles  “olho de peixe “ para servirem de bolinha. Conclusão : voltei a lixamento em grande escala. Eram tantos os meus times que tive até o do São Cristóvão, com Santo Cristo e Olivam na ala esquerda.
Em 1962, já em Rio Grande e no BB, adotei o São Paulo Futebol Clube e unicamente ele, nos torneios da AABB. Voltei aos puxadores, mas continuei a fabricar botões por distração.

CAXIAS DO SUL

Considero-me um nômade por excelência e tenho andado de uma a outra banda. Como dizia o poeta gaúcho, Marco Aurélio Campos, “ se a inspiração me comanda, da trilha logo me afasto e até semente de pasto replanto pelas estradas velhas, vermelhas, ao repisar no meu rasto “. Em 1965, dezembro, aportei em Caxias do Sul. Levei comigo alguns poucos botões para alguma eventualidade, sem muita esperança, pois, afinal de contas, não conhecia ninguém lá.  Erro de previsão, felizmente.  Logo nos primeiros dias, conheci um cara que se tornou  0 meu , não um meu, mas 0 meu amigo, compadre e irmão de verdade.  Passei a desfrutar do seu generoso e agradável convívio e descobrimos algumas facetas em comum : éramos desportistas, adeptos do FM e praticantes da fraternidade humana. Seu nome, Adauto Celso Sambaquy. Seu time, Flamengo de Caxias.  Que achado ! Passei a ter um amigo em todos os momentos e aquele joguinho de botão atingiu proporções inimagináveis,  transformando-se em Futebol de Mesa. Através do Samba, tomei contato com outros maravilhosos parceiros, como o Chicão, o Mazzochi, o Vanazzi, o Heitor, o Grazziotin, o Paulo Fabião, o Schumacher, os irmãos Valliatis, o Pizzamiglio, o Guizoni, o Sergio, o Puccineli, e tantos outros. Dois deles, principalmente, tornaram-se marcantes pelo espírito esportivo : Sergio Callegari e Raimundo Vasques. Devo ter omitido algum nome.  Penitencio-me por isso. Havia dois meninos que nos acompanhavam como torcedores : o Ric e o Dalla Rosa. Este último arrebatou-me o título de Campeã Estadual em 1975 na cidade de Jaguarão. Em determinado momento o Samba , depois de excursionar com seu time até a Bahia, oportunizou-nos receber o Oldemar Seixas e o Ademar que vieram lá da Boa Terra e nos deram uma verdadeira demonstração do seu talento como botonistas. Aliás lá em 1966 já tínhamos os nossos novos times, fabricados com acrílico e estampado a camisetas das respectivas equipes. Que maravilha ! O FM praticado como entretenimento – como de fato o é – aproxima as pessoas e lhes transmite muitas lições de desportividade e respeito. É ideal para os jovens, pois é uma prática sadia. O resultado dos jogos fica em plano secundário, colocando-se a convivência como ponto primordial. Sou muito grato ao Sambaquy e , éclaro, ao restante da parceria de Caxias do Sul, de onde levei o esporte para Canguçu.  Até hoje, sem interrupções, os canguçuenses praticam esse esporte, cujas competições são ponto de destaque nos festejos de aniversário da cidade e na Semana da Pátria.

Quanto a mim, estava “ adormecido “ até ontem. Sim, até ontem ! Hoje, encontro-me inclinado a voltar, nem que seja para rever a parceria e reabraçar uma prática que me acompanhou por mais de sessenta anos. Sabem por que devo voltar ? Pois é, recebi um carinhoso telefonema do Adauto Sambaquy aconselhando-me a retornar às lides botonísticas. Foi mais longe, enviando um gentil confrade, o Luis, que dirigiu-me um convite a jogar no Círculo Operário de Pelotas. Meus  “atletas” já estão concentrados e devidamente parafinados.

Não tenho mais comigo as inúmeras fotos das competições e da parceria. Não tenho mais os meus troféus nem os meus velhos botões da minha fabricação. Uma enchente no ano de 2009 levou tudo por diante, até a minha mesa de botão. Levou muito mais, mas….é bom nem falar a respeito.

O voz do Sambaquy ao telefone, tão familiar, tão amiga, tão carinhosa, cutucou o coração deste vulcão inativo. Estou expelindo cinzas pelos poros e revivendo tantos momentos felizes e agradáveis. Fases da vida que me deixaram profundas e indeléveis marcas na alma e no coração. Para falar a verdade, essas  marcas, inapagáveis, são muito semelhantes às daquela significativa parede.

Eu daria tudo que tivesse

Pra voltar aos tempos de criança

Ah ! meu Deus por que a gente cresce

Se não sai do peito essa lembrança

 

Aos domingos missa na matriz

Da cidadezinha onde nasci

Ah ! Meu Deus eu era tão feliz

No meu pequenino Mirai

 

Que saudade da professorinha

Que me ensinou o “ bê a ba “

Onde andará Mariazinha

Meu primeiro amor onde andará

 

Eu igual a toda a meninada

Quanta travessura que eu fazia

JOGO DE BOTÃO PELA CALÇADA

EU ERA FELIZ E NÃO SABIA

(música :Mirai – autor : Ataulfo Alves)

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