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Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos (Parte IV)

Publicado em 1995, pelo autor Abrão Aspis o livro Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos, conta a trajetória deste que foi inegavelmente o maior descobridor de talentos do futebol gaúcho. Ao longo de várias publicações serão colocados aqui todos os capítulos desta história.

 

 

 

 

Retorno ao Inter

Em 1964 Abílio retornou aos juvenis do Internacional para ficar até 1968. A esta altura é um treinador consegrado. Tem quarenta e seis anos e sua habilidade em descobrir talentos passou a ser reconhecida. As escolinhas do Inter recebem milhares de garotos. Mais tarde um jornalista diria, em relação a Abílio: “…a quem todos os jovens procuram para iniciar a carreira bem formados”. Muitos pretendentes, poucas vagas. É necessário uma seleção apurada. Para os bons tem a uma política: “Não dá para assegurar o futuro de um guri, mas, pelo menos, não corro o risco de perder um Pelé”. Para os ruins, a política é outra: “Pelo andar eu não poso garantir quem é craque, mas sei reconhecer quem é perna de pau”. Estes passam a perturbar, impedem-no de se concentrar nos bons. Então, rejeita-os, às vezes, de forma abrupta e indelicada.
Não deixa de viajar. Gosta de ver os craques em seu “habitat” natural, na várzea, nas peladas. Lá o jovem é espontâneo, disputa com seus iguais, nas mesmas condições, tem o mesmo preparo físico, No Internacional, o garoto enfrenta atletas com algum treino, melhor condicionados, mais seguros. Às vezes se assusta com o tamanho do estádio ou o nome dos colegas mais antigos, inibi-se, não demonstra seu potencial. Ao selecionar alguém Abílio diz: “Vai e joga teu futebol. Não te impressiona o nome dos jogadores.” No primeiro ano, após a volta é campeão de forma invicta, com a seguinte escalação:

CAVALHEIRO
ZANGÃO BATISTA PONTES ENÍSIO
BRÁULIO CHORINHO
CARLOS CASTRO DARLAN MANOEL LAONE

Abílio formou uma das melhores meia-canchas de sua vida. Tanto Bráulio como Chorinho eram habilidosos com a bola, verdadeiros mestres. Infelizmente a dupla se desfez. Como se relatará mais tarde, Bráulio foi causa de alegrias, Chorinho de mágoas e decepções. Em 1965 foi um ano difícil, não conseguiu armar um bom esquadrão. Atendendo ao pedido do presidente do clube, Manoel Braga Gastal, por alguns meses, treinou os profissionais, desde a dispensa do técnico Sérgio Moacir até a admissão de Larry Pinto de Faria. Nada deu certo, nem o time principal, nem nos juvenis. E o Grêmio conquistou o tetra-campeonato da categoria profissional.
Em 1966 nos juvenis, Abílio renovou o elenco, trabalhando os jogadores a sua maneira e ganhou o campeonato. Ser campeão era rotina na vida de Abílio, mesmo em condições adversas quando devia ceder seus craques, já entrosados, para o time de cima. A rotatividade dos técnicos do quadro principal foi grande, e por conseqüência, a dos atletas, que eram requisitados como salvadores da pátria. Nenhum presidente quer sucesso a longo prazo, deseja-o de imediato. Era preciso improvisar e ter capacidade de descobrir craques as centenas. Essas qualidades Abílio tem. Venceu em 1966 com um esquadrão renovado:

SCHNEIDER
JORGE GUARACI NITOTA MACAU FERNANDO
SALADA TOVAR
JORGINHO SÉRGIO GALOCHA CLAUDIOMIRO JOÃO CUÉCA

Enquanto isso o elenco principal continuava mal. Era a época do hepta-campeonato do Grêmio, ultimava-se a construção do Beira-Rio e a diretoria tinha olhos preferenciais para o novo estádio. Mas o clube armava-se, preparando para o ser o time da década, e os título inéditos de octa-campeão de 1969 a 1976, além do tri-campeonato brasileiro em 1975, 1976 e 1979. Esses campeonatos seriam obtidos pelos craques que Abílio despejava para o elenco principal. Iriam surgir entre outros: Dorinho, Chorinho, Pontes, Bráulio, Sadi, Sérgio Galocha, Schneider, Claudiomiro, Tovar, Mosquito, Escurinho, Carpegiani e Cláudio Duarte.
Afora estes, muitos outros iniciaram com Abílio e se celebrizaram em clubes diversos. Abílio tem boa memória, mas são muitos os alunos e perde a conta. É o caso de Flecha, ponteiro direito do Grêmio e do América do Rio. Abílio descobriu-o jogando peladas no Bairro Mont’Serrat em 1965, com 17 anos. Levou-o para o Internacional e o orientou ano e meio até atingir a idade limite. O técnico dos profissionais, Paulinho de Almeida, não obstante o parecer de Abílio, o dispensou. Flecha, então circulou por clubes do interior do estado até 1968 quando foi contratado pelo Grêmio. Ponteiro veloz, tiro certeiro, cruzamento preciso, chegava fácil a linha de fundo, desvencilhando-se dos adversários. Ficou no tricolor até 1973 quando com Ivo Wortmann, foi trocado por Tarciso, junto ao América do Rio de Janeiro. Em 1976 foi convocado para a Seleção Brasileira. Flecha considera Abílio, embora o pouco tempo de conivência, o técnico que mais contribuiu para o sucesso de sua carreira.

 

 

 

ESPORTIVO
A obsessão dos dirigentes do Esportivo de Bento Gonçalves era formar um bom time de futebol. Um clube do interior deveria se tornar a terceira força do futebol gaúcho. Por que não o Esportivo? Os desportistas da cidade diziam: “Em Bento se morre pelo Esportivo”. De fato: um presidente, certa ocasião, indignou-se com uma medida da Federação Gaúcha de Futebol, pegou o carro e desceu a serra, rumo a Porto Alegre, neste deslocamento sofreu um acidente e morreu. Orlando Gude, outro dirigente dedicado que dispendia com o clube o que ganhava na industrialização do vinho, trocou o vôo para assistir ao Esportivo, o avião caiu e ele faleceu. Em 1964 e 1965, o clube gastou quarenta milhões de cruzeiros ampliando o Estádio da Montanha para poder assim disputar o campeonato da Primeira Divisão.
Tinham então o estádio e a vontade da diretoria; faltava time. em 1969 partem para mais um ano de esforços e sacrifícios. Toda a cidade se mobilizou. Uma vinícola contribuiu com Cr$ 900,00 mensais. firmas de comércio auxiliaram na medida de suas possibilidades; cada conselheiro pagava Cr$ 35,00 por mês para suportar Cr$ 16.000,00 da folha de pagamento e assim manter 22 atletas e contratar um técnico respeitável. O escolhido foi Abílio dos Reis. Abílio encarou o desafio entusiasmado, pela primeira vez iria treinar um time de profissionais. Deram-lhe condições. Indicou vários jogadores: Neca, veio do Rio Grande; Paulo Araújo, ex-júnior do Internacional que estava atuando no futebol argentino. Outros, foram pesquisados a dedo e Abílio conseguiu montar um esquadrão de respeito.

EDGAR
ADAIR HÉLIO JOSÉ MARCOS
PAULO ARAÚJO RUI NECA
GONHA LAIRTON DÉCIO

Deste time se destacariam o centroavante Lairton, posteriormente vendido ao Grêmio, além da meia-cancha composta de Paulo Araújo, Rui e Neca, considerada a melhor do estado no ano de 1969. Neca foi a revelação do ano. Assediado por muitos clubes, acabou vendido ao São Paulo, e após, convocado para a Seleção Brasileira. Jogou no Grêmio em 1975 e 1976. Com este elenco, Abílio venceu o campeonato da Divisão de Acesso e credenciou o Esportivo a disputar no ano seguinte o campeonato principal do estado. Na Divisão Especial de 1970, obteve o terceiro lugar. Neste ano, venceu o Grêmio por 5-2, maior goleada imposta ao time tricolor naqueles tempos. Lairton fez 4 gols. O campeão seria o Internacional, com melhor campanha, derrotando o Esportivo duas vezes por 1-0. Abílio gostou do seu trabalho em Bento Gonçalves, porém, sentiu que era hora de retornar aos seus juvenis. Não foi difícil, o Grêmio voltou a atraí-lo.

Grêmio (Porto Alegre, RS)

 

 

 

GRÊMIO
A permanência de Abílio no Grêmio foi de apenas um ano. O clube não ia bem na Divisão Especial e a culpa, na verdade, era dos atletas colorados que o próprio Abílio descobrira no período de 1964 a 1968, como Braúlio, Claudiomiro, Carpegiani, Tovar, Sérgio, Dorinho que obteriam o tri-campeonato do estado, a caminho do octa. No Grêmio, Abílio desenvolvia seu trabalho descobrindo valores, mas o técnico dos profissionais, Otto Glória, procurando soluções imediatas, recrutava os de maior destaque para o quadro principal. O centro-médio Tupã, melhor jogador juvenil, Ivanir e outros, foram promovidos prematuramente. Conseguiu apenas um vice-campeonato.

 

 

 

AIMORÉ
Frustrado, Abílio retirou-se para voltar em 1972, dirigindo mais uma vez um clube profissional, desta feita o Aimoré de São Leopoldo. Nada de especial, clube pequeno, poucos recursos, obteve tão somente um quarto lugar.

Trechos do Livro: Abílio dos Reis, O Garimpador de Talentos

Aspir, Abrão
Abílio dos Reis, o garimpador de talentos/Abrão Aspis – Porto Alegre: Acadêmica, 1995.
1. Reis, Abílio dos – Biografia Técnicos de Futebol – Biografias I. Título
CDD 927.96334
CDU 92 (Reis)

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