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Grupo de pesquisadores faz loucuras por memória do futebol

A quase 10 anos, ocorria mais uma reunião dos pesquisadores de futebol do Rio Grande do Sul, desta vez, nos reunimos na residência do colega Laert Lopes, em Porto Alegre. Na época o jornalista Nico Noronha, que registrou o encontro para o Pelé.Net. Acompanha a agora a matéria publicada no site em 13/12/2006.
 Grupo de pesquisadores faz loucuras por memória do futebol
Sem nenhum interesse financeiro, grupo de gaúchos mantém tradição de vasculhar a história e comemora 10 anos de buscas.
pesquisadores

Pesquisadores posam para fotografia durante o 10º encontro anual do grupo, que resgata a memória do futebol gaúcho. Da esquerda para a direita, a frente: César Freitas, José Luiz Tavares Maciel, Nílvio Severo e Laert Lopes. Ao fundo:  Carlos Menezes, Rafael Vinholes, Roselio Basei, José Alexandre Baum e João Batista Lopes da Silva.

Por Nico Noronha, do Pelé.Net (Matéria publicado em 13/12/2006 – 09:17)

PORTO ALEGRE – No último dia 9 de dezembro, um grupo de nove homens, com idades que variam entre 29 e 76 anos, de localidades diferentes do estado do Rio Grande do Sul, se reuniu na casa de um deles para o 10º encontro anual de fim de ano. O motivo da reunião, além da confraternização, foi mostrar as últimas descobertas, contar as últimas aventuras e reafirmar o pacto de não abandonar a missão a que se dedicam: resgatar e manter viva a memória do futebol gaúcho.

Eles não têm interesse financeiro algum com o trabalho que fazem e gastam o tempo livre para desenvolvê-lo. No meio do grupo, há quem freqüente cemitérios buscando descobrir em lápides as datas de morte de jogadores do passado; outro gastou o dinheiro de sua aposentadoria para montar um programa que reúne as fichas dos 9.314 jogos da dupla Gre-Nal em toda a história; um terceiro sai pelo estado a fotografar e fazer cartões postais de todos os estádios do Rio Grande; e o mais velho deles acaba de registrar em fantásticos quatro volumes, editados de forma quase artesanal, a história do Brasil de Pelotas, clube que tem a mais fanática torcida do interior gaúcho.

“Resumindo, é um bando de loucos”, declarou, em meio ao churrasco de encerramento da temporada, o jornalista César Freitas, 60 anos. Colunista de um pequeno jornal da cidade de Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre, A Semana, ele mantém um espaço denominado “Você Lembra?”, no qual conta a história de um antigo jogador já caído no esquecimento. Nessa tarefa, já buscou centenas de histórias, as quais serão aproveitadas num livro que será publicado em março.

“Vai se chamar ‘A Enciclopédia do Futebol’, e já temos mais de 1.300 verbetes catalogados, mas ainda faltam uns 250 que estão encalhados”, afirma César, revelando dificuldades para precisar datas de nascimento ou morte de determinados atletas. Não existem parentes conhecidos, nenhuma pista sobre onde passou – ou passa – o fim da vida, e daí a necessidade, muitas vezes, de ir até à última morada de quem já foi ídolo, ou seja, o cemitério.

O livro está sendo produzido em conjunto com o escritor Marco Antônio Damian, de Passo Fundo, que já tem outras obras na mesma linha, como “A História do Futebol de Passo Fundo”. César lembra que o esforço é enorme e destaca o fato de que “os recursos para a edição são próprios, porque nenhuma editora se interessou pelo assunto”.

Há dez anos, nascia a Socope
Um dos mais jovens entre os integrantes dessa turma de pesquisadores é Luiz Alexandre Baum, 32 anos, morador da cidade de Novo Hamburgo. Ele é um dos integrantes da Socope – Sociedade de Colecionadores de Postais de Estádios – e tem como missão sair a fotografar os campos de futebol do Rio Grande do Sul, mesmo de clubes amadores. “O mais importante é buscar aqueles que nunca foram fotografados, ou conseguir imagens de estádios que nem existem mais e recuperá-las”, explicou Baum.

O presidente regional da Socope e José Luís Tavares Maciel, 44 anos, habitante de Sapucaia do Sul. A Sociedade tem sedes, também, em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará. Eles fazem trocas constantes de postais, organizam mostras e lançam coleções com imagens inéditas. Já realizaram exposições até mesmo na Europa.

“No momento estamos trabalhando numa série que terá cartões só de estádios de clubes da segunda divisão gaúcha”, adiantou Maciel. Será uma caixa a exemplo de outra que fez muito sucesso quando lançada em 1998, em conjunto com a Federação Gaúcha de Futebol. “Aquela edição foi ótima e deu tudo certo, porque contamos com o apoio da Federação, que acertou com os clubes, pois quando estamos sozinhos, muitos não autorizam que façamos as imagens, é uma negociação complicada”, acrescentou.

Já Roselio Basei, 36 anos, morador de Sapiranga, não encontra tantas dificuldades para manter e aumentar a cada dia sua coleção. Ele não precisa negociar direito de imagens para usá-las em exposições. Apenas vai à caça de escudos de times de futebol e os organiza em álbuns particulares. Já soma 25.000 times. Uma mania que começou aos 12 anos e que hoje é um vício incontrolável.

“Tudo teve início no dia em que um colega me mostrou uma pequena coleção de 10 distintivos de grandes clubes de futebol. Tratava aquilo como um tesouro, e acabou despertando em mim a vontade de fazer algo parecido”, explica Roselio, que desempenha outro trabalho gratuito em suas horas vagas, além de garimpar escudos. Ele arquiva toda e qualquer notícia que saia em jornais sobre o pequeno Sapiranga Futebol Clube, que inclusive foi desativado neste ano.

“Tenho ingressos dos jogos, anúncios que chamavam para as partidas, notas oficiais publicadas em jornais, enfim… Mas agora, desativado, o time sumiu da mídia, mas espero que seja por pouco tempo”, lamenta. O motivo do fechamento, conta, foi esse: “Um grande empresário assumiu o clube e prometeu fazer grandes investimentos durante três anos. Mas um ano depois fechou as portas e fundou uma outra associação esportiva”.

A mesma obsessão por escudos motiva o dia-a-dia de outro integrante do grupo, Carlos Menezes, 44 anos, da cidade de Viamão. Só que ele se dedica não apenas a colecioná-los, como a trabalhá-los e redesenhá-los em programas de tratamento de imagem via computador. Na quantidade de símbolos já tratados, ainda está longe de alcançar Rosélio, pois totaliza “apenas” 15 mil escudos.

“Redesenho em vetor, trabalhando a granulagem das imagens”, resume ele, a respeito da atividade que já rendeu um álbum de luxo com os escudos de todos os clubes da primeira divisão, de todos os países filiados à Fifa. “Não foi fácil e não houve lucro nenhum, até porque não era mesmo esse o objetivo. É o meu vício, já que não bebo e não fumo”, conta o colecionador.

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Laert Lopes pesquisa a dupla Gre-Nal

Com os 9.314 jogos da dupla Gre-Nal na memória do computador
Laert César Lopes, 58 anos, se aposentou nesta virada de século e, finalmente, conseguiu se dedicar em tempo integral ao que mais gosta: pesquisar a história de Grêmio e Inter, algo que antes fazia apenas no pouco tempo que sobrava quando trabalhava na assessoria de imprensa da Companhia Riograndense de Telecomunicações. Apesar de gremista, dedicou-se inicialmente a resgatar a história do rival Inter e hoje se orgulha de dizer que tem na memória de seu computador tudo sobre o clube do Beira-Rio.

Laert acomoda-se em frente à máquina e faz um desafio à reportagem do Pelé.Net: “Diz aí o nome de qualquer jogador da história do Inter e te mostro o que ele fez pelo time”. Para complicar, a sugestão é de um zagueiro de nome curioso, que defendeu o Inter nos anos 30, Graham Bell. E em instantes está ali na tela número de partidas, de gols, período em que defendeu o clube, perfeito.

O pesquisador gastou um bom dinheiro para montar o programa que, garante, é inviolável. As informações não podem ser transferidas para nenhum outro computador. Nem sabe direito quanto gastou para desenvolvê-lo, mas pode estar perto dos R$ 50 mil. Chegou a dialogar com a diretoria do Internacional, para ver se não desejaria adquiri-lo, mas o clube – que não tem essas informações organizadas e, além disso, nem as têm todas – considerou o valor muito caro e desistiu do negócio.

Em segundos Laert Lopes mostra que o Inter já realizou 4.614 jogos – sem contar o da manhã desta quarta-feira, contra o Al Ahly, do Egito, pelo Mundial de Clubes da Fifa -, venceu 2.648, empatou 1.089 e perdeu 877. Fez 9.709 gols e sofreu 4.605. Já o Grêmio, seis anos mais velho, jogou mais vezes: são 4.700 partidas, com 2.683 vitórias, 1.088 empates e 929 derrotas. Marcou 9.897 e sofreu 4.821 gols.

Ele pode informar número de jogos por estádio, maiores goleadores, quem mais atuou pelo clube, as séries mais longas de invencibilidades, enfim… Já pensou em publicar tudo isso, mas teria de ser uma enciclopédia, o que seria caríssimo. E assim vai acumulando as informações e garantindo, ao menos na sua CPU, a história completa dos dois maiores clubes do Rio Grande do Sul.

Enciclopédia pode ser, também, a denominação para a obra de outro senhor aposentado e amante do futebol, o pelotense Nílvio Benitez Severo, 76 anos, o mais velho dos integrantes dessa turma que ele, num rápido discurso durante o encontro, denominou de “Academia Brasileira de Pesquisadores”.

Pelé.Net

Nílvio Benitez Severo, de 76 anos, é o autor do livro “Grêmio Esportivo Brasil – 90 Anos”

Severo, apaixonado pelo Brasil, de Pelotas, vendo o tempo passar e a história do clube se perdendo no ar, como a fumaça dos sinalizadores de sua fanática torcida – conhecida como “xavante” -, decidiu escrever e ele mesmo editar “Grêmio Esportivo Brasil – 90 Anos de Memória Histórica”. Deu trabalho, resultou em quatro volumes, com dezenas de capítulos como um que trata apenas das participações do cube em campeonatos brasileiros, outro sobre a torcida, sobre os esportes amadores, etc, etc…

Mas a compensação à “trabalheira” veio. Ao apresentar o produto pronto e encadernado, foi aplaudido de pé pelos conselheiros do clube, numa solenidade que o emocionou. “Fiz tudo isso para presentear o meu time, para que não perdesse a identidade do passado e também para deixar para os meus filhos”, explica Nílvio Severo.

Como a história não pára, já armazena as informações para produzir, no futuro, um novo e atualizado volume sobre o clube que, neste 2006, esteve próximo de chegar à série B nacional, mas acabou eliminado no octogonal final. Na sua melhor temporada, em 1985, chegou às semifinais do Brasileirão.

Caçula da turma se dedica a catalogar súmulas de jogos
João Batista Lopes da Silva, porto-alegrense, é um dos dois caçulas – 29 anos – dessa turma de arqueólogos do futebol do Rio Grande do Sul. Técnico em informática, e trabalhando como projetista de sistemas, ele criou o site Sumulas-Tchê, no qual vai catalogando as fichas técnicas de todos os jogos da primeira, segunda e terceira divisão do futebol gaúcho, além de outras copas organizadas pela Federação Gaúcha.

“No ano 2.000 eu comecei a registrar os resultados de todos os jogos, copiando apenas o placar e os goleadores. Depois vi que não tinha muita graça só aquilo, e resolvi armazenar súmulas completas, com todos os dados das partidas”, explica, a respeito de seu processo de pesquisa. De 1987 para cá, já tem todos os jogos e, no momento, se dedica a ir retrocedendo na história, até chegar aos primórdios da história futebolística gaúcha.

O site tem, também, em seu banco de dados, ficha de 10.000 atletas, entre eles os jogadores do Internacional, categoria que é a especialidade de Rafael José Oliva, que também tem 29 anos. Nos últimos 11 vem registrando no próprio Beira-Rio, as fichas técnicas de todos os jogos. “Vou com o meu caderno, me acomodo no estádio, e fico anotando tudo, na hora em que as coisas acontecem”, diz Rafael, que é funcionário do crematório São José há quatro anos.

Já trabalhou na produção das cinzas de alguns jogadores do passado do Inter, os quais não quis citar, limitando-se a revelar somente o nome de alguns dirigentes famosos, como o ex-presidente Carlos Stechmann, que foi o comandante do clube no ano de 1969, quando da inauguração do Beira-Rio.

Assim como os demais companheiros desse bando de loucos que se consideram imortais de uma Academia Brasileira de Pesquisadores que oficialmente nem existe – como os próprios se definem – Rafael Oliva se transforma, nas horas vagas, em rato de biblioteca, de museus, frequenta arquivos de jornais e luta para preservar a história.

Eles tem seus locais preferidos de pesquisa e os citam. O Museu Histórico Hypólito da Costa, que é estadual; o Museu Moyses Velhinho, municipal; e entre as redações destacam a do Correio do Povo, jornal com 112 anos de história. “Eles cobram R$ 10 a hora, mas somos bem tratados, inclusive com água e cafezinho”, fazem questão de frisar.

Por fim, já encerrando o encontro anual, falam dos inimigos que encontram no caminho. Os principais são aqueles que ficam dilapidando a história. Pesquisadores sujos e egoístas que surrupiam documentos, recortam jornais, tomam para si informações de interesse da eternidade. Dizem saber alguns nomes, mas evitam dedurá-los. Até porque são otimistas e acham que driblarão as dificuldades e sempre encontrarão o caminho certo para fazer o golaço que é resgatar a memória do futebol do pampa gaúcho.

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