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Luiz Luz – O Fantasma da Área

Conheci o Sthenio quando trabalhamos juntos aqui em Porto Alegre, no início dos anos 2000, cara gente boa, gostava de conversar e de jogar um futebolzinho, melhor ainda é quando unia as duas coisas e então uma boa conversa sobre futebol fluía sempre com coisas muito interessantes. Vale aqui registrar que em um Grenal que jogamos entre os gremistas e colorados da empresa, surgiu uma outra grande qualidade do colega, até hoje nunca comi uma massa carbonara tão boa quanto a que ele preparou depois da partida.

Em uma de nossas conversas ele me contou que era sobrinho do grande Luiz Luz, atleta que despontou no extinto Sport Club Americano de Porto Alegre, onde foi Campeão Gaúcho de 1928, ainda pelo Americano, foi convocado para a Copa do Mundo de 1934, na Itália, mais tarde jogou no Grêmio e Peñarol do Uruguai.

O nome Luiz Luz se imortalizou como um dos grandes atletas que envergaram a camiseta do Grêmio, da Seleção Gaúcha e também do Americano. E nada mais justo que convidar o amigo Sthênio para relatar aqui o que pensa e o que sabe sobre a carreira do tio, e é o que temos logo abaixo, obrigado amigo por compartilhar aqui essas histórias.

Luiz Luz, o fantasma da área

Por: Sthenio Montag Luz (01/03/2018)

Todo mundo entende e dá palpite sobre futebol. Branco, preto. mestiço, caboclo ou mameluco. Independente da classe social ou profissão que exerce, todos têm opinião sobre futebol. Respeito algumas. Desconsidero outras. O que não posso aceitar é a falta de critério.

Quem foi o melhor zagueiro do Grêmio de todos os tempos? Esta era a pergunta de uma rádio “pampeana” após o jogo do Grêmio terça-feira passada, depois falha de infantil da defesa gremista. Cada um com a sua opinião. A maioria repetindo o que outros disseram. Engraçado, foi ouvir quem escala o seu melhor time pelo ouvir dizer. O jornalista comentou:
– Não vi fulano jogar, mas meu zagueiro seria “fulano de tal”.

Se não viu jogar, como pode “ele” achar que o jogador que “ele” não viu jogar, era o melhor da posição? Porque o outro acha? Porque ele ouviu dizer? Porque acredita que este outro conhece futebol? Coisa de jornalista palpiteiro. Aliás, o que mais tem é jornalista palpiteiro. Até porque jornalista não entende nada de nada e dá palpite em tudo. É na política. É na economia. Na previsão do tempo. No futebol, nem se fala.

Então, vamos esclarecer democraticamente de uma vez por todas. O melhor zagueiro gaúcho de todos os tempos, e não pode faltar em nenhuma seleção de futebol de todos os tempos, seja ela do Americano, do Grêmio, da seleção gaúcha ou da seleção brasileira, foi Luiz Luz.

Agora, quem não conhece a história do futebol gaúcho e brasileiro, não dê palpite. Não sou só eu quem está dizendo. É de quem viu jogar. É de quem jogou do lado dele. É de quem jogou contra ele. Apenas uma questão de critério. Vejamos.

Tudo começa em fevereiro de 1934, em partida amistosa no campeonato de seleções entre gaúchos e paulistas, Waldemar de Brito e Leônidas da Silva (para quem não conheceu estas lendas, pesquise) convenceram a diretoria da CBD na época, que o zagueiro a defender a seleção brasileira para a copa do mundo de 1934 seria Luiz Luz.

Com toda a cerimônia, a diretoria da CBD desceu em Porto Alegre, foram à casa da minha avó e pediram a ela deixasse seu filho Luiz disputar a copa do mundo pelo Brasil. Resposta da velha, um simplório NÃO.

Fico imaginando a cena, três caras em ternos de casamento, com vinco na calça, unhas bem tratadas, ar de quem tomara banho há dez minutos, a conversar com minha avó. Gostaria de ter presenciado a cena. A velha sentada a sua cadeira de balanço, que mantenho comigo até hoje, balançando para cima e para baixo, disse a eles que não. Depois de muita conversa ouviram um vou pensar. Depois de muitas horas concordou que ele atravessasse o atlântico para defender a seleção brasileira de futebol na copa do mundo de 1934.

Nos dias de hoje seria, convencer a mãe de Messi, Neymar ou Cristiano Ronaldo a representar o seu país em uma copa do mundo. “Imaginem se a mãe deles diz não.” A considerear que na época, não tínhamos transmissão de rádio ao vivo. Não tínhamos TV. Redes sociais. Ou qualquer outro meio de divulgação a não ser a notícia através do jornal dois dias depois.

Quem via, via. Quem não via, tinha a notícia através dos jornais. Ou nunca ficou sabendo. Só ouviu dizer. Então Waldemar e Leônidas, que nunca tinham visto o Luiz Luz jogar, depois dos noventa minutos de jogo, onde não conseguiram passar pelo zagueiro gaúcho conversaram entre si e concordaram: Esse é o cara.

Tudo isto para dizer, se você não viu jogar, deve conhecer a história do futebol, neste caso brasileiro e mundial. Ele tem sua história marcada e documentada no museu do futebol brasileiro em São Paulo. Ele tem sua história marcada e documentada no museu do Grêmio. É reverenciado todos os anos no jantar farroupilha. Tem seu nome gravado nos arquivos da FIFA. Nos arquivos da CBF. O nome dele está gravado na história do futebol brasileiro e mundial. Que outro zagueiro do Grêmio tem a metade disto? Um terço disto? Então me venham com “churumelas”.

Ninguém pode escalar como selecionável entre os melhores, o jogador que nunca tenha jogado em uma seleção de estado, sem ele nunca ter disputado uma copa do mundo (Não é fazer parte do grupo. Não ser convocado para ficar no banco em uma partida amistosa. É ser escalado por quem conhece – Waldemar de Brito e Leônidas da Silva – como titular na zaga brasielira), o resto é falar do desconhecido.

Em tempo. O “Fantasma da área”, apelido dado pelos jornais paulistas, como um fantasma, aparecia do nada para tirar a bola dos adversários colocando pavor aos seus adversários.

Corrigindo o que muito jornalista metido a historiador informa equivocadamete. Luiz Luz quando foi convocado a defender a seleção brasileira de futebol, defendia o Sport Club Americano, time de futebol da cidade de Porto Alegre dos anos 30, onde jogou de 1928 a 1934. Em 1935 foi contratado pelo Grêmio, onde jogou até 1941. Ainda jogou no Peñarol do Uruguai. Mas isto eu conto outra hora. Ponto final.

Algumas imagens do gentilmente cedidas por Sthenio Montag Luz.

Luiz Luz – zagueiro do Esporte Clube Americano -Defendendo a seleção brasileira na copa do mundo de 1934.

Contratado pelo Grêmio em 1935

Em 02.10.1938 – Grenal pelo campeonato citadino – Grêmio 4 x 3 Internacional. Superando já no chão o goleiro colorado Julio Petersen.

22.09.1935 – Campeão Gaúcho – Campeão Farroupilha. Na foto por ordem: Lara, Foguinho, Mascarenhas, Dario, Luiz Luz, Mottini, Mário Pereira, Jorge, Veronese, Adão, Russinho, Lacy , Sardinha II e Castilho.

28.04.1940 – Grenal pelo citadino de 1940 – Grêmio 2 x 3 Internacional – À esquerda, Luiz Luz, capitão gremista; ao centro, o árbitro pelotense Francisco Azevedo; à direita: o capitão colorado Russinho.

Luiz Luz – zagueiro do Esporte Clube Americano -Defendendo a seleção brasileira na copa do mundo de 1934. Escalação do “escrete brasileiro abaixo da foto”.

Luiz Luz – zagueiro do Esporte Clube Americano -Defendendo a seleção brasileira na copa do mundo de 1934.