Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos (Parte III)

Publicado em 1995, pelo autor Abrão Aspis o livro Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos, conta a trajetória deste que foi inegavelmente o maior descobridor de talentos do futebol gaúcho. Ao longo de várias publicações serão colocados aqui todos os capítulos desta história.

“Seu” Abílio, em 1954 no Renner. (Foto: Acervo Ayrton Luiz Balsemão)

 

 

 

RENNER

Para Abílio, o ano de 1947 foi importante: o amigo Acácio da Silva Luzia foi contratado como técnico do Grêmio Esportivo Renner com a missão de organizar um time de juvenis, e convidou Abílio para auxiliá-lo. Ao mesmo tempo conseguiu-lhe um emprego no crediário da firma A. J. RENNER, patrocinadora do clube. Uma proposta irrecusável, na época. Acácio, ao fim de 1947, incompatibilizado, desligou-se do Renner e Abílio assumiu, herdando a missão de completar a montagem do quadro. Coube ao novo treinador o mérito de um feito inédito: o elenco recém constituído de um clube pequeno superou Grêmio e Internacional, e ganhou brilhantemente o campeonato. O esquadrão vencedor estava assim constituído:

VALDIR
AULUS JAIR
FLÁVIO ARCY ELSON
SABIÁ MILTON ADIR LUIZ MÁRIO

Para a montagem deste esquadrão, Abílio percorreu os diversos clubes de várzea. Aulus e Luiz, buscou no Turiaçu; Sabiá e Adir, no Marquês de Alegrete; Mário, no Farroupilha (clube dirigido pelo jornalista Alberto André); Milton, na Cidade Baixa e os demais no seu clube de origem, o Pombal. Nesse time dois jogadores se destacavam: Sabiá, rápido e habilidoso ponteiro direito e o goleiro Valdir, cujo nome completo era Valdir Joaquim de Moraes, e que viria a se tornar um dos maiores arqueiros das décadas de 50 e 60. Ainda hoje é treinador de goleiros da Sociedade Esportiva Palmeiras de São Paulo. Nada mal para um ano de estréia: campeão da cidade e descobridor de um dos maiores guarda-metas do país. No ano seguinte suas qualidades são confirmadas: Bi-Campeão Juvenil da cidade. O time, com algumas alterações, passou a ser:

VALDIR
AULUS OSMAR
ARI DO MONTE NECO ELSON
FLÁVIO PIVETE ADIR LUIZ MÁRIO

De 1949 a 1955 cumpriu um longo jejum. Afinal o Renner era um clube pequeno e não podia segurar seus atletas, nem proporcionar as facilidades e benefícios como podiam, por exemplo, Grêmio e Internacional. Os guris bons de bola se rendiam à força da dupla. Mas em 1956, Abílio tomou uma atitude inédita. Seu elenco de 1955 não correspondeu e os atletas estavam desestimulados. Abílio, eterno caminhante pelos campos da cidade, observou que o Atlântico, clube do bairro Floresta, formara um belo time de juvenis (como usavam a camisa do Grêmio, doada pela proprietária do clube, Dona Conchita, se auto-denominavam “Grêminho”). Abílio convidou todos os garotos do Atlântico, enxertou uns poucos remanescentes e armou um esquadrão que se tornou campeão invicto da categoria, com grande vantagem sobre o segundo colocado, Era formado por:

LAERTE
GARCIA DÍLSON
CIDADE SARRAFO SALMOURA
RENZO HIGINO ÊNIO SOUZA OSQUINHA CLÁUDIO

Seu ataque era excelente, tanto que todos foram transferidos para os clubes maiores. Higino foi para o Corinthians de São Paulo, Ênio Souza para o Grêmio, Osquinha e Cláudio para o Internacional. Renzo preferiu continuar os estudos e largou o futebol. Em 1954 o esquadrão titular do Renner, com muitos atletas juvenis de Abílio, realizou uma façanha inédita para o futebol gaúcho. campeão da categoria profissional, honraria somente permitida à dupla Grenal. O técnico era o professor Selviro Rodriguez e o quadro vencedor:

VALDIR
ORLANDO PAULISTINHA
BONZO LÉO OLÁVIO
PEDRINHO BRENO MELLO JUAREZ ÊNIO ANDRADE JOECI

Dos jogadores acima, muitos tiveram sucesso, uns no futebol, outros fora desse: Valdir se consagrou como jogador do Palmeiras e da Seleção Brasileira; Orlando, Paulistinha, Bonzo e Joeci, fizeram nome no futebol gaúcho; Ênio Andrade, como técnico, foi campeão da Super-Copa com o Cruzeiro e Tri-Campeão brasileiro com o Internacional, Grêmio e Coritiba; Breno Mello se transformou em artista de cinema. Foi o galã do filme Orfeu do Carnaval, produção Franco-Brasileira, vencedora do Festival de Cannes. Em 1958 a firma A. J. RENNER, por problemas financeiros, encerrou suas atividades futebolísticas. Abílio dos Reis com fama consolidada de técnico competente não tardou a encontrar emprego. Frederico Arnaldo Ballvé, presidente do Internacional, convidou-o para treinar os juvenis do clube.

 

 

 

INTERNACIONAL

Em 1959 Abílio, com quarenta e um anos, foi treinar os juvenis do Internacional. Ficou até 1961. Na época o quadro principal não passava por boa fase. Foi campeão em 1961, é certo, mas o Grêmio havia sido penta-campeão de 1956 a 1960, e atingiria o hepta de 1962 a 1969. O técnico trouxe do Renner muitos de seu juvenis como Beno Becker, Bruno, Marco Eugênio (que viria a se tornar um técnico de sucesso), Danilo, Paulo Araújo e Motini (hoje, médico colorado). Com esses atletas, mais remanescentes do Inter, organizou um elenco que obteve o campeonato, em seu primeiro ano de clube.

BENO BECKER
BRUNO ARI ERCÍLIO DAUDT MARCO EUGÊNIO
CLÁUDIO DANI PAULO BERG
DANILO SÉPE PAULO VECCHIO MARINO

Em 1960, obtém um brilhante bi-campeonato com:

GUAPORÉ
MOTINI BRUNO CECONI NILO
PAULO ARAÚJO CARIOCA
DAGOBERTO FLÁVIO ALCINDO JAIME

No ano seguinte, conquista o tri invicto:

GUAPORÉ
MOTINI BATISTA PAULO SOUZA ROBERTO
PAULO ARAÚJO GASPAR
JAIME HÉLIO ALVES ALCINDO PICA

Os times de 60 e 61 são praticamente imbatíveis. Por muitos jogos se manteve invicto, nem derrotas, nem empates. Era uma verdadeira máquina, poderosa e demolidora. O público esportivo do estado passou a perguntar quem era esse Abílo dos Reis, um técnico que sabia fazer jogadores e organizar esquadrões poderosos. Todo garoto com pretensão a jogador de futebol, independente do clube de preferência, passou a procurar Abílio. Nunca, na existência do Estádio dos Eucaliptos o Inter foi tão visitado. Nestes três anos os atletas que mais se destacaram, entre outros, foram: Beno Becker, Paulo Vecchio, Ari Ercílio, Guaporé, Motini, Nilo, Flávio e Alcindo.
Paulo Vecchio surgiu em 1959 e no ano seguinte, substituía o centroavante Larry Pinto de Faria no elenco principal do Internacional. Formou dupla de área com Alfeu, grande responsável pelo campeonato de 1961.
Ari Ercílio, nasceu em Belém Novo, Porto Alegre e foi considerado um dos melhores zagueiros da época. Juvenil de Abílio em 1959, profissionalizou-se em 1960. Em 1963 foi vendido ao Corinthians de São Paulo onde deixou marca. Em 1965, saudoso, voltou ao sul para para jogar, primeiramente no Floriano de Novo Hamburgo e após, em 1967, no Grêmio, onde substituiu o ídolo gremista Aírton, que envelhecia. E naquela defesa de “A’s” (à exceção de Everaldo): Arlindo (ou Alberto), Altemir, Aírton (depois Ari Ercílio), Áureo e Everaldo, jogou até 1972, quando se transferiu para o Fluminense. No Rio de Janeiro, durante uma pescaria, morreu tragicamente no esplendor de sua forma física. Abílio descobriu em três anos sucessivos, de 1959 a 1961, três centroavantes de alto nível, Paulo Vecchio, Flávio e Alcindo. Se voltasse a ocorrer hoje, seria a redenção de qualquer equipe brasileira, por pior que fosse sua situação técnica ou financeira.
Infelizmente, poucos atletas se consagraram. Não obstante o tri-campeonato, os jovens craques não tiveram tempo de sedimentação. O elenco principal não ia bem. Os bons juvenis foram, prematuramente, alavancados para o elenco principal, porque a direção queria colher logo os resultados de campo. O time submergia e os jovens o acompanharam.

Grêmio (Porto Alegre, RS)

 

 

 

GRÊMIO

Em 1961 a diretoria do Grêmio decidiu incrementar as atividades das categorias inferiores. Uma das primeiras providências foi contratar Abílio do Reis para a temporada seguinte. Faziam-no com dois objetivos: reorientar o departamento juvenil e desmontar a máquina existente nos juvenis do Internacional responsável por um recente tri-campeonato. Ofereceram-lhe um bom salário, por outro lado as relações de Abílio com um diretor colorado ficaram estremecidas. Nestas ocasiões alguém deve sair, em geral o técnico, até hoje é assim. No primeiro ano Abílio conseguiu apenas um vice-campeonato. Preparava um bom elenco, mas o adversário (os juvenis do Inter) possuía basicamente a mesma formação tri-campeão do ano anterior, organizada por ele próprio. Mas, em 1963, os resultados começaram a aparecer. O Grêmio foi campeão do Torneio Início, bem como do Citadino Juvenil. Disputou quarenta partidas sucessivas, entre amistosas e oficiais, sem derrota ou empate. O elenco era:

 

BRENO
ADAIR ALTAIR OSCAR JERÔNIMO
EVERALDO ALEXANDRE BALLEJO
JORGINHO PARAGUAIO (ALCINDO) PAÍCA HUMBERTO

Parte desses jogadores foram profissionalizados e atingiram o quadro principal, como Breno, Paraguaio e Paíca, Jorginho, Alexandre, Alcindo e Everaldo.

Trechos do Livro: Abílio dos Reis, O Garimpador de Talentos

Aspir, Abrão
Abílio dos Reis, o garimpador de talentos/Abrão Aspis – Porto Alegre: Acadêmica, 1995.
1. Reis, Abílio dos – Biografia Técnicos de Futebol – Biografias I. Título
CDD 927.96334
CDU 92 (Reis)

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A Infância e a Várzea O retorno ao Inter
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