Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos (Parte II)

Abílio dos Reis (E), sendo entrevistado pelo repórter Paulo Moura, da Folha da Tarde. Fonte: Campani Cultural

Publicado em 1995, pelo autor Abrão Aspis o livro Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos, conta a trajetória deste que foi inegavelmente o maior descobridor de talentos do futebol gaúcho. Ao longo de várias publicações serão colocados aqui todos os capítulos desta história.

Infância

Três irmãos portugueses, no início do século, imigraram para o Brasil. José de Oliveira Reis ficou em Porto Alegre, Jerônimo e Manuel se estabeleceram em Taquari. José se empregou numa firma que comercializava cereais, casou com a descendente de portugueses, Honorina Pesca e, do casamento, nasceram cinco filhos: Abílio, Lino, Paulo, Maria e José. O primeiro filho do casal, Abílio, morreu com poucas horas de vida. Quando nasceu o segundo, em 10 de janeiro de 1919, por gostarem do nome e em homenagem àquele que haviam perdido, deram-lho a mesma designação. Felizmente, o segundo Abílio era saudável, pois qualquer prenúncio de doença gerava, nos pais, angústias e lembranças. Uma pontada de pneumonia em Abílio instalou o terror na casa dos Reis. E foi assim com as primeiras doenças. Por fim, os pais se acostumaram, tanto que quando se manifestou a epilepsia no caçula, dona Honorina era uma mãe calejada e confiante. Curou-o, aos sete anos, com injeções de bismuto e simpatias.

Abílio estudou no Colégio São Pedro na Floresta e, após, no Colégio Rosário, até o terceiro ano ginasial. Na escola não passava de um aluno médio sem nenhum destaque. O primeiro emprego foi na firma de Celestino Duarte de Azevedo, na exportação de arroz e feijão. Depois, por influência do pai, no depósito Saturno, de Saturnino Vanzelotti. Saturnino era um dos mais respeitados dirigentes do Grêmio Foot Ball Porto alegrense e, futuramente, seria o presidente. Sua firma era o ponto de encontro dos próceres, onde se decidiam os mais graves problemas do clube tricolor. Como presidente, em 1952, tomou uma decisão histórica e polêmica: contratou o preto Tesourinha, ex-atleta colorado e acabou com a discriminação racial no Grêmio. Todos os caminhos levaram Abílio a ser gremista. O pai era sócio e torcedor do Grêmio e, com os filhos assistia futebol no campo da “Baixada”, antigo “ground” do Grêmio, hoje Parque Moinhos de Vento. Os manos Lino e José se tornaram torcedores do mosqueteiro, mas Abílio não se deixou envolver pela polarização – Internacional X Grêmio – antes menos intensa que hoje, e preferia o Pombal, time varzeano da Zona Norte onde era aguerrido quarto zagueiro.

A Várzea

Na época de sua adolescência, no bairro Floresta, como em toda Porto Alegre, existiam muitos terrenos baldios. Bastava um adepto do futebol limpar uma área, comprar uma bola e estava fundado um clube. Campo muito frequentado por Abílio e sua turma era o do Isaías. Esse uruguaio era dono de um estabelecimento na Cristóvão Colombo, onde ferrava cavalos. Pediu a garotada que ajeitassem um terreno ao lado de sua casa e deu uma pelota. Surgiu, assim o Clube Mauá.

Em 1934, um rapaz mais afortunado, o Buguês, limitou uma área no Morro Ricaldone, trouxer a bola e convidou os amigos para organizar um time. Todos gostavam de jogar naquele espaço, Embora Burguês fosse dono da redonda e do campo, era goleiro e não prejudicava a escalação. Junto à Felix da Cunha, o senhor Aita, proprietário do Restaurante Santo Antônio, emparelhou um campo, reuniu uns moleques e fez nascer o Atlântico Futebol Clube. Nada de original: algumas décadas antes, em 4 de abril de 1909, comerciários e estudantes da Cidade Baixa, na casa de um atleta de 18 anos, João Leopoldo Seferin, se reuniram e fundaram o Sport Club Internacional. Não tinham dinheiro e nem patrimônio, mas eram hábeis. Ofereceram o título de “Presidente Honorário” ao capitão Graciliano F. Ortiz, diretor do Departamento de Limpeza Urbana e responsável tratamento de áreas devolutas. Ganharam, assim o melhor campo da cidade, na Rua Arlindo, e por conseqüencia, muitos associados. Nessa áreas sempre havia moleques de folga das aulas ou gazeteando-as, correndo atrás de uma bola. A bola? Pouco importava qual fosse. Podia ser de jornal cujas folhas eram enroladas uma a uma como casca de cebola e depois amarradas com barbante, ou a de meia de seda que as mães davam aos filhos quando o fio puxava. As pelotas boas deviam ser compradas. Eram de couro, com tento que, na época, as válvula eram caras. Precisava-se amarrar forte o tento para o ar não vazar. Mas sempre vazavam. Por isso um acessório indispensável, tanto quando o balão de couro, era a bomba de ar. Seguidamente se interrompia o jogo para encher a pelota. A bola oficial, a que transformava a pelada em jogo de futebol, era a número cinco, comprada nas lojas Cauduro ou Lusbal. Eram as oficiais e até hoje muitos locutores esportivos se referem à número cinco. Mas jogava-se tambpém com a número três, ou dois, pois para jogar futebol, qualquer sacrifício valia a pena.

Tendo três irmãos homens, às vezes jogavam juntos, outras em times contrários. Em certa partida, o zagueiro Abílio entrou firme no mano. Os colegas reclamaram, mas Abílio se justificou:
-Em casa ele é meu irmão, no campo é meu adversário.
Com o tempo, firmou nome no futebol de várzea. Dono de um chute forte, jogo viril, se transformou num respeitável quarto zagueiro. A potência do chute lhe valeu um apelido: “Canhão do Morro”, referência ao Morro São Pedro onde ficava a sede do Pombal. Aconteceu na preliminar do jogo Seleção Gaúcha e Paulista, na Timbaúva, campo do Força e Luz. O Pombal disputava contra outro clube de várzea. Abílio bateu um tiro livre e a bola disparou como um foguete, mas caiu murcha a poucos metros. A velha pelota com tento, não suportou o impacto do chute do craque. Noutra ocasião, em partida contra o Palestra, pelo Torneio Rio Futebol Clube, houve uma falta no círculo central. Abílio era o cobrador oficial. O vento forte ajudava. A pelota batida com força tomou velocidade e surpreendeu o goleiro adversário. Um gol para confirmar e valorizar o pseudônimo de “Canhão do Morro”.
Abílio tentou jogar nos clubes da Divisão Especial. Fez testes no Força e Luz mas não foi aceito. No São José teve mais sorte, atuou um ano e meio, depois foi dispensado. Retornava, então, ao Pombal onde a quarta zaga, por competência e antigüidade, permanecia à sua disposição.
Jogou em outros grêmios de várzea, mas sempre retornava ao Pombal. Em 1940, com vinte e dois anos, ganhou o seu primeiro título: Campeão Varzeano, em torneio promovido pela Folha da Tarde.
O tempo passava e Abílio permanecia no clube. Tornou-se um dos mais antigos jogadores e, naturalmente, assumiu o cargo informal de treinador e capitão do time. Este foi o início de sua carreira como técnico.

Fundado em 5 de fevereiro de 1922, como Pombal Foot-Ball Club e atualmente, Pombal Futebol Clube, foi o time do coração de Abílio dos Reis, seja como zagueiro, capitão ou técnico, desde de muito cedo ele vivenciou, conheceu os caminhos e os talentos oriundos da Várzea como era a designação dos clubes amadores de Porto Alegre. Dos campos da Várzea, seu Abílio encontrou vários jogadores que fizeram história no futebol.

Veja o Post Anterior Continua em outro Post…
O Garimpador A Carreira como Técnico

Trechos do Livro: Abílio dos Reis, O Garimpador de Talentos

Aspir, Abrão
Abílio dos Reis, o garimpador de talentos/Abrão Aspis – Porto Alegre: Acadêmica, 1995.
1. Reis, Abílio dos – Biografia Técnicos de Futebol – Biografias I. Título
CDD 927.96334
CDU 92 (Reis)

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