Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos (Parte I)

Publicado em 1995, pelo autor Abrão Aspis o livro Abílio dos Reis – O Garimpador de Talentos, conta a trajetória deste que foi inegavelmente o maior descobridor de talentos do futebol gaúcho. Ao longo de várias publicações serão colocados aqui todos os capítulos desta história.

Prefácio
Por: Luís Fernando Veríssimo

Se existe alguém alguém que merece ser chamado de “legenda vida” é o Abílio dos Reis. Há anos ouço histórias dele, do seu talento para descobrir jogadores, das suas tiradas, da sua sabedoria. Curiosamente, ninguém ainda tinha se lembrado de botar a “legenda” no papel. Agora aqui está ela. Abrão Aspis nos redimiu da negligência e fez um belo trabalho.
Para o torcedor colorado com uma certa digamos, vivência, a história de Abílio transcende o interesse histórico e literário e se transforma numa viagem sentimental dentro da sua própria memória, cheia de redescobertas, No fiam o que Abrão Aspis conta, contando a vida e as vitórias de Abílio, é a história da nossa paixão comum pelo futebol e seus personagens. Estivemos no passado que ele descreve, sentamos na sua arquibancada, vibramos e nos desiludimos e voltamos a vibrar de novo. Mais, até do que pensávamos, Abílio dos Reis foi um dos responsáveis por este passado de “feitos relevantes” e só temos que agradecer.
A ele e ao Abrão, que deixa a legenda escrita para os que vem aí.

Introdução
Por: Abrão Aspis

Duas partes compõem o presente trabalho, Na primeira, descrevo a carreira de Abílio dos Reis, a passagem por diversos clubes, seu métodos, suas histórias. Limito-me a citar fatos relativos a sua atualização, sem enveredar pela história do clube. Na segunda, menciono os atletas mais notórios, onde a influência do treinador foi marcante. Nomear todos seus jogadores é impossível. Restrinjo-me aos atletas que alcançaram a titularidade no Sport Club Internacional e aos de maior sucesso em outros clubes.
Pretendia apenas relacional os craques garimpados por Abílio. Constatei, porém, que sua atuação era tão acentuada nos atletas trabalhados, que necessitava citá-los, Na realidade, Abílio lapidava tão bem quanto garimpava.

A ação de Abílio se dá em três níveis:
Primeiro – Jovens que Abílio descobriu na várzea ou em clubes pequenos e transformou em craques. Foram garimpados, entre outros, Capegiani, Dunga, Sadi, Dorinho, Pontes, Mauro Galvão, Schneider, Cláudio Duarte, Sérgio Galocha, Valdir Moraes e Alcindo.
Segundo – Atletas existentes no clube, para os quais a participação de Abílio foi decisiva, Foram burilados: Flávio Bicudo, Gilmar, Luiz Carlos Winck, Claudiomiro, Escurinho, Pinga, Caíco, Leandro, Argel, entre outros.
Terceiro – Craques treinados e orientados por Abílio: Falcão e Everaldo.
Ao escrever esta biografia tomei o cuidado de evitar o panegírico e o elogio constante e farto. Biografias correm este risco quando escritas por admiradores, amigos ou beneficiados. É dificil escapar à louvação. Max Nordau, dizia que a história se faz com base na mentira e no engodo. E os maiores geradores desta disfunção, certamente, são os biógrafos complacentes. O carisma de Abílio, como descobridor de talentos, é tão intenso que a ele se atribui a geração de qualquer craque no Rio Grande do Sul. Início a prática da crítica já na presente Introdução: lamento informar que Batista, Jair, Taffarel, contra a opinião geralmente aceita, não foram atletas de Abílio. Cabe o mérito a Marco Eugênio, para os dois primeiros e Homero Cavalheiro para o último. Abílio, homem simples e modesto, é o primeiro a confirmar.
Tinha a intenção de relacionar os amigo e colaboradores que me auxiliaram com dados e sugestões. A relação seria imensa, mesmo assim, incompleta. Deixo de fazê-la para evitar omissões mas, sinceramente, agradeço a todos.

Garimpando…

Abílio dos Reis desceu do carro e, compenetrado, observou uma pelada de garotos que jogavam na Praça da Redenção. Era 1959. Terminado o jogo, aproximou-se do centroavante de um dos times e convidou-o para testes no Internacional.
No Dia seguinte o rapaz treinou e foi aprovado.
-Tens apelido?
-Tenho. É Larry.
-Por quê?
-Porque sou centroavante e me acham parecido com ele (Larry Pinto de Faria).
Abílio passou a orientar seus treinamentos. Após alguns ensaios, recomendou-o jogar na quarta zaga e logo a seguir na lateral esquerda. Com a mudança de posição o apelido perdeu sua razão. Deixou de ser Larry e passou a ser ele mesmo, Sadi. E como Sadi foi o capitão do time e titular do Internacional por sete anos. Foi um dos precursores do lateral de avanço, hoje chamado de ala. Diversas vezes convocaram-no para a Seleção Brasileira.

***

Em 1968 Abílio foi assistir uma partida amistosa em Charqueadas, a sessenta quilômetros de Porto Alegre. Haviam-lhe recomendado um centromédio, alto e forte, que batia bem na bola. O visitante gostou do atleta e convidou-o para vir ao Internacional. O garoto, com dezessete anos, treinou bem e assinou ficha. Algum tempo depois, Abílio o aconselhou:
-És um bom centromédio, mas acho que rendes melhor na lateral direita. Além do mais, veio de Erechim, um meio campista habilidoso e de bom pulmão que não vai te dar vez.
Naquele ano nasciam, para o futebol brasileiro, o lateral Cláudio Duarte e o médio Paulo César Carpegiani.

***

Dois times da FEBEM, em 1977, jogavam uma pelada de fim de tarde. Abílio observava. Interessado perguntou a um dos centroavantes se queria ser testado no Inter. Logo o treinador acertou com a direção da FEBEM a liberação do atleta e, assim, Pedro Verdum, quinze anos, pode mostrar sua intimidade com a bola no tapete do Beira-Rio. Verdum foi a promessa mais ostensiva e duradoura de um centroavante. Talvez o jogador gaúcho com o maior número de convocações para a Seleção Brasileira das categorias jovens. Contudo não correspondia quando escalado no esquadrão principal. Nunca passou de promessa.

***

Em 1978, amigos de Ijuí apontaram a Abílio um meia cancha de quatorze anos. Os informantes eram confiáveis, já haviam feito outras indicações com bons resultados. O recomendado veio a Porto Alegre e se apresentou. A princípio Abílio desacreditou do atleta devido a compleição: gordo, possante, coxas grossas. Diretores e técnicos do clube sugeriram sua dispensa, mas o garoto, além de treinar bem e ter um chute forte, demonstrava garra e determinação. E garra é virtude muito importante para Abílio. Manteve o atleta, mas aconselhava:
-Não bebe tanto refrigerante. Toma água.
-Por que comes tão depressa? Tenha calma.
-Desiste do pão. Deixa de comer quindins.
-Faz musculação, queima essa gordura.
O menino; com muita força de vontade, obedeceu. E, duas décadas após, em 17 de julho de 1994, mostrou à cerca de um bilhão de pessoas, pela televisão, o corpo perfeito de um atleta ao erguer a Taça de Tetra-campeonato Mundial, como capitão da Seleção Brasileira.

Continua em outro Post…
Infância / A Várzea

Trechos do Livro: Abílio dos Reis, O Garimpador de Talentos

Aspir, Abrão
Abílio dos Reis, o garimpador de talentos/Abrão Aspis – Porto Alegre: Acadêmica, 1995.
1. Reis, Abílio dos – Biografia Técnicos de Futebol – Biografias I. Título
CDD 927.96334
CDU 92 (Reis)

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